Quinta-feira, 20 de Março de 2008

A TONTURA DA GUERRA


Todos os anos terminamos um ano a fazer contas e começamos outros a fazer promessas. Temos o maior cuidado com as palavras negativas e tentamos, o mais possível, multiplicar o sim. Tudo indica que a palavra mais positiva para começar 2008 seja exactamente o não, porque as palavras valem o que tempo deixa que valham e dos tempos são estes os sinais:

Não.

Na sua pequenez julgam-se heróis, os senhores da guerra e lançam, como lápis do céu a desenhar, em branco, os riscos da morte, aviões mascarados de pombas.

Não.

Imitam, no pior, os irracionais. Ogivas, em fogo, são sempre os seus faróis que, sabem, irão iluminar, na terra, a mentira que constroem, como se fosse um véu, para enganar a sorte de quem recebe as suas bombas.

Não.

Nas suas mãos ficará somente areia. Os ponteiros do relógio construtores teimosos da ilusão do estio, hão-de perder-se, na praia, como um grão, sabendo sempre o que acontece ao tempo, que pela mão se esvai.

Não.

Nas suas gargantas a construção da teia que a todos enreda nos horrores.

Depois fica, subitamente, o frio dos que tendo tudo, não têm coração, porque ninguém nem nada os aquece, pairando secos quando a noite cai.

Não.

Num passo quase feito de magia incendeiam, no mar, suas fogueiras, como quem alimenta uma chama fugaz antes que chova, no medo, apenas um risco de memória no tempo, fazendo dessa perda o seu tesouro.

E fingem-se de peixes. Alegria que deixa vogar, nas eróticas bandeiras, a pesca à força dos cardumes da paz.

Não.

Para quem não sente nunca é cedo para sentir, sentindo, no amor, o sentimento que é sinal de algum pior agouro.

Sabem os rombos que fará a ordem dada, fingindo um mar tranquilo e sem baixios como se o fundo fosse a tranquilidade da areia.

Sentem a pequena dor do gozo, na jogada que farão na frota os seus navios, lançando aos outros a venenosa teia.

Não.

Dói-lhes a conjugação do verbo ser e é no verbo ter que se perfilam. Preenchem o percurso com músicas antigas, caminhando pela sombra, porque conseguem ver nos olhos dos que não sabem que destilam ódio e terror, em palavras aparentemente amigas.

Não.

É sempre do presente que nos falam. Esta tontura não tem futuro e a força das palavras não depende da mão. Importa descobrir o que nos calam, iluminar tudo aquilo que hoje é escuro e gritar:

CONVOSCO NÃO!

Não aos deuses das primeiras filas!

Não aos senhores das cadeiras do centro!

Não aos que ficam no topo dos palanques!

Não às palavras teatrais, tranquilas!

Não à vertigem que os rói por dentro!

Não aos donos dos aviões e tanques!

Não aos que se sustentam dos outros, quais parasitas!

Não aos que se reproduzem na tontura da guerra onde não há espírito, nem deus ou salvação!

Não aos que usam as palavras mais bonitas para dizer que vão salvar a terra!

Não!

Eles são, de facto, a sua perdição!

Tudo indica que os donos da maioria das palavras definitivas hão-de tentar vender-nos o sim nos saldos negativos de Janeiro. O pior é que as palavras em saldo apenas valem um impiedoso embrulho de ilusões. Paguemos-lhe com o não!

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