Quinta-feira, 20 de Março de 2008

A sustentabilidade sustentável


Porque parecem novas as velhas palavras? Quase todos os dias nos caem em cima o peso de velhas palavras como sustentado e sustentável. E são pesadas porque os novos discursos são apenas como as velhas estatísticas e os novos biquinis: aumentam aparentemente o peso do que é verdadeiramente leve e mostram, como evidências, o que toda a gente pode ver, escondendo o que verdadeiramente interessa.

Usadas com mestria, as velhas palavras sustentado e sustentável, sempre compuseram, na aparência, os novos discursos, mesmo que disfarçadas de castelos.

Convidei, em sonhos, La Fontaine a escrever uma nova fábula sobre a matéria e ele fez-me a vontade.

Os três castelos

Chegadas ao palanque, bem no alto, as aves convencidas de um desígnio geracional prometeram o que melhor sabiam ser ignorância dos animais que as aplaudiam:

- Vamos construir-vos três castelos! Com eles tomaremos de assalto os que só fazem negro raciocínio dos tempos que hão-de vir, só de alegria! Onde vocês antigamente só sofriam ficarão desenhados os destinos mais belos.

E assim foi: aos peixes marinheiros ordenaram que fizessem, altivo, o seu castelo. Aos pássaros voadores pediram que construíssem uma fortaleza que pudesse tornar-se monumento. Aos rastejantes soldados ordenaram, com voz potente, o levantar de um castelo digno, talvez, de uma epopeia.

Obedientes, zelosos, todos fizeram aquilo que mandaram (é bom o trabalho quando o sonho é grandioso e belo). A tempo estavam prontas as encomendas para que as vissem:

Os soldados orgulhosos do seu castelo de vento, os aviadores radiantes com o seu castelo no ar e os marinheiros babados com o seu castelo de areia!

Esqueceram-se as ordenantes de pormenores apenas:

Junto às praias há sempre mais marés que peixes marinheiros. No ar nem mesmo as nuvens mais leves permanecem e nem sempre é a tempestade quem desfaz os ventos.

Pormenores que afinal não conheciam. Segredos que a outros poderosos animais já pertenciam:

Construções de areia desfazem-se com ondas pequenas. Ligeiras depressões derrotam altos sonhos corriqueiros e, por entre brisas, até os ventos se desvanecem.

Moral da história:

Quem de promessas vãs recheia os seus intentos, arrisca-se a ser apenas uma repetição tardia das palavras que já em noites passadas os animais temiam!

Enfim, todos os dias nos são servidas de sobremesa as velhas palavras como se fossem farófias. Gulosos, caímos na tentação de engoli-las porque são muito mais volumosas que densas e, em tempo de crise, nos garantem, aparentemente, a tranquila digestão das farófias bazófias sustentadas e sustentáveis.

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